Ocasionário

De uma filha de imigrante.

Sou mestiça, filha de imigrante. Me orgulho demais disso. Procuro sempre identificar e destacar características minhas que me identificam como parte de outra parte do mundo. Acontece, porém, que uma parte das características que filhos de imigrantes geralmente tem, eu não tenho. Não falo a língua materna da minha mãe. O que sei é muito pouco, menos do que se pode encontrar em livros para turistas. É desonroso.

Eu poderia, é claro, sentar minha bunda na cadeira e estudar japonês até não aguentar mais e conseguir um certificado que me ateste proficiente nesta língua. Mas não consigo. A vergonha que eu tenho sentido há muitos, muitos anos constantemente criou um estigma muito grande em torno da língua materna da minha mãe. Todas as vezes que eu vejo algo escrito em japonês, em todas as vezes que eu ouço alguém falando em japonês, ouço qualquer menção ao Japão… Algo se movimenta dentro de mim que extingue parcialmente a alegria. Não é que eu não goste, longe disso. Revive a lembrança de que eu não tenho uma parte tão fundamental da cultura de uma nação que é mãe de parte do meu sangue. O desânimo de mim comigo mesma toma conta. É algo que eu tento me livrar, mas não consigo. O sentimento de ser uma decepção cultural me assombra muito profundamente.

Eu juro que tento afastar o fantasma do dever, mas não consigo. Sempre começo a pensar "eu deveria saber disso" e me volta a vergonha por não saber. Ao invés de incentivo, no entanto, esses sentimentos me geram uma angústia gigantesca que me impede de efetivamente buscar mudar essa situação em que eu vivo. Fico angustiada por não saber, por dever saber, por decepcionar por não saber. Abro um livro para aprender e me sinto triste e desapontada comigo mesma, não consigo. Às vezes, tento tirar alguma dúvida com alguém que eu conheço, reúno toda as minhas forças, e talvez a dificuldade para me expressar a respeito do japonês ou mesmo a forma que as pessoas pensam sobre o que eu sei ou deixo de saber em japonês faz com que eu geralmente acabe bem frustrada e arrependido de ter expressado minha dúvida para alguém. Não sei bem o que é ou por quê, mas acontece com mais frequência do que eu gostaria. É um ponto que me dificulta aprender japonês também…

Espero um dia me livrar desse peso e conseguir aprender, finalmente, a falar essa língua que me é tão presente. Até lá, sigo colocando um sorriso no rosto esperando que, assim, a tristeza e o peso sobre os ombros vão embora.

Meio idiota.
De aulas e sintomas
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