Ocasionário

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Me levei pra passear

Em farrapos, mas espero que melhorando.

Iberê Camargo, autorretrato, 1984.

Faz algum tempo que eu ando em crise comigo mesma.

Eu ando com humor meio esfarrapado, que às vezes remenda e rasga de novo.

É a milionésima vez (talvez décima quinta) que eu começo a escrever este texto e eu acho que finalmente está funcionando.

Ultimamente, as minhas dores corporais têm aumentado. As palavras têm me fugido bastante. A escrita de palavras têm ficado complicada, com muitos erros de grafia (mas que eu consigo identificar). Algumas frases têm soado intradesconexas para as pessoas. As dúvidas de mim comigo mesma têm me abordado com uma frequência que me tem sido maior do que o que eu sinto ser saudável.

Eu gostaria de estar escrevendo este texto com várias dicas de como ultrapassar essa situação, mas eu infelizmente me sinto num redemoinho. Um dia, quem sabe.

Por enquanto, me sinto em frangalhos, mas eu sei que tudo vai melhorar. Só não sei quando.

Com carinho e sem âncoras.
Me levei pra passear
Parou por quê?

Com carinho e sem âncoras.

Eu estou há bastante tempo tentando escrever algo para continuar a preencher este blog. Já tentei escrever sobre como vejo pouco ponto de exclamação e como isso me passa uma ideia de que as pessoas não estão tão animadas com as coisas como eu gostaria que estivessem, tentei escrever sobre como me falta habilidade para conversar pela internet, tentei escrever sobre por que as pessoas choram… Nenhum deles se desenvolveu ainda, mas estão guardadinhos, esperando amadurecer. Com vontade de escrever e vendo a insistência nos assuntos citados anteriormente me ancorar, decidi deixar de lado minhas ideias e metaescrever.

Faz muitos anos que escrevo. Muitos mesmo. Desde que aprendi a escrever, tenho escrito livros, piadas, contos. Claro que não posso dizer que o que eu escrevia com cinco anos de idade tem a mesma qualidade que alguma obra de Machado de Assis, mas certamente está contribuindo para que um dia eu chegue lá. Muito do que escrevo acaba incompleto. Não faço ideia de quantos livros comecei a escrever e há apenas um que outro capítulo escrito. Escrever me é fácil e difícil. Não é incomum que eu tenha ideias, elas vêm à mente como pipocas, mas desenvolvê-las é complicado. Às vezes, tenho ideia de um começo de universo, fim de estória e estes são escritos. Muitos estão até perdidos dentro de diversos discos rígidos, esperando que algum arqueólogo literário-digital os encontre e alimente o texto e ele passe a marcar o mundo. Espero que esse arqueólogo seja eu. Este texto mesmo que tu está lendo agora começou a ser escrito em abril. Estamos em junho e cá estou eu: redescobri o texto e estou preenchendo-o.

Muito do que escrevo talvez nunca seja lido por outra pessoa que não eu, mas isto não me incomoda. Escrever é um ofício que me alivia a alma e torna mais palpável o que há em mim. Caso alguém leia, fico contente. Se não, tudo bem também! Contar meus causos me conforta o suficiente.

Como diria o carteiro Teodorico*: "[…] não repare os defeitos, ouviu? Esvaziei bastante a alma, tudo não era possível!"

* O carteiro Teodorico é uma personagem da crônica "Sondagem", escrita por Carlos Drummond de Andrade.

Em farrapos, mas espero que melhorando.
Me levei pra passear
De uma filha de imigrante.
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